Irmão Sol, Irmã Lua

relogio-111[1]Esperar. Esperar é algo que definitivamente podia se dizer que eles fizessem juntos. Talvez não juntos, mas prometidos. Prometidos como um casal. A relação mesmo era um pouco virtual, de tempos anteriores aos das redes sociais. Uma coisa de só existir na cabeça deles, devidamente comprometidos um com o outro. Oficialmente mesmo, na real, era raro vê-los juntos. O negócio deles era esperar.

Esperavam ter tempo pra se ver e, via de regra, levavam o cotidiano como típicos solteiros – salvo, claro, os encontros fortuitos. Esperavam que os dias e a agendas permitissem encontros mais demorados. Parecia um feitiço, cada um podendo quando o outro não podia. O Sol e a Lua, que nunca podiam se encontrar. Havia até espera imediata, dessa de quem espera chegar, mas acontece de não dar.

Tinham sonhos que esperavam o tempo certo, como tinham urgências que sempre tinham que esperar, cada vez mais urgentes. Quem não esperava nunca era a vida, que eles esperavam que pudesse ser longa o suficiente para que eles tivessem tempo, algum dia. Esperança sempre havia de que não precisassem esperar muito.

Havia quem esperasse um enlace, mas, tudo indicava, o pedido ia ter que esperar. E a espera parecia justa, porque já não esperavam encontrar, àquela altura, alguém que valesse a espera. Quem é que tem tempo para esperar aparecer alguém que lhe devolva o tempo?

Esperar. Faziam isso prometidos, por dias a fio, como quem espera chegar em casa e encontrar alguém esperando, enfim, pra tapear o tempo e fazê-lo esperar.

O Homem do Meio | Capítulo Primeiro

dried-blood-brushA estação das chuvas parece querer nos mostrar como somos uma coisa só com o universo. Chove há tantos dias que, se havia quem os contasse, certamente se cansou. A umidade é tanta que qualquer um pode sentir-se capaz de escorrer pelo chão ou de inchar feito uma rolha de cortiça. A condição humana parece especialmente frágil em dias tão constante e longamente molhados. O céu, cujo azul parece ter se desfeito em água em tempos já imemoriais, não dá mostras de trégua e continua a vazar lentamente, misturando a chuva e a enxurrada num caldo espesso e escuro que parece capaz de nos dissolver.

É madrugada. Um velho Elantra branco estaciona devagar em frente a um bar vazio numa parte da cidade que não é recomendável a qualquer pessoa, de qualquer idade, a essa hora. O motorista deixa o carro como se não tivesse reparado nas condições atmosféricas e tenta acender um cigarro. A umidade já deu cabo da faísca do maldito isqueiro, que masca sucessivamente antes de ser atirado sarjeta abaixo. Carregando o cigarro molhado preguiçosamente pendurado num dos cantos da boca, o homem entra no bar deserto e escuro. e parece, enfim, perceber a diferença entre seco e molhado.

A penumbra do lugar faz o homem sentir que é o único ser humano do planeta que está acordado. O silêncio que deveria pousar sobre as mesas e cadeiras a dormir é perturbado pelo zunido de uma lâmpada distante que parece choramingar por estar acesa àquela hora. Um gemido abafado se une ao zumbido e indica o seu caminho, na direção do porão. No topo da escada, onde o som melhor esboça a cena que acontece lá embaixo, o homem detém-se, indignado, sentindo o baque seco dos socos a retumbar na própria sonolência. “Filho da puta…!”,  reprova por entre os dentes, olhando as sombras no final da escada. Balança um “não” com a cabeça, esfregando a largura da testa entre o polegar e o dedo médio, a expressar irritação. É claro que aquela não se trata de uma primeira vez. A descida é preguiçosa; embora resolvido, o homem parece querer preparar-se para o que sabe vir em seguida.

“Ah, como eu gosto de disso!”, grita uma voz, interrompendo como um soco a entrada do homem com o cigarro na boca. Ele ajeita a postura, girando a cabeça ora à esquerda, ora à direita, como se pudesse puxar o corpo mole com o pescoço. É a preparação do artista que encarna um personagem novo antes de entrar em cena. Quando cruza o batente da porta, a primeira coisa a recepcioná-lo é um jorro de sangue, que espalha-se de encontro ao casaco, deixando a costumeira mancha. O homem fecha os olhos, reconhecendo com extrema falta de paciência a familiaridade daquela cena . “O jorro de sangue… claro…!”, pensa consigo, contando até 10 para não explodir num acesso inútil de fúria.

Um imenso senhor de terno branco brilhante o recebe impaciente. “Finalmente!”, abre os braços, os punhos embebidos em sangue. O porão parece um matadouro: na cadeira ao centro, uma pústula escarlate, que ainda há pouco era um homem, faz bolhas de sangue com a respiração custosa sob pedaços de seu rosto. A lâmpada reclamona fraqueja de sono, piscando sua luz branca de açougue sobre um chão estampado de nódoas escuras. Dois truculentos senhores em ternos cinzas empertigados parecem fazer as vezes de guarda-costas. Um deles, mais próximo à porta, ergue o braço em punho até a cara do homem com o cigarro na boca. Uma coisa que se consegue depois de experimentar a morte algumas dezenas de vezes é perder completamente o medo de qualquer coisa. Nem o cigarro nem o homem que o segura na boca movem-se um milímetro qualquer com o gesto brusco do segurança. Ainda assim, o obtuso guarda-costas sorri cínico, satisfeito do susto que nunca dera, e abre a mão para acender o cigarro dele com a chama que trepida suspensa em sua mão. O olhar do fumante diz “IDIOTA”, com todas as letras maiúsculas. Ele toma espaço no porão, joga a fumaça pra cima e pergunta, quase desinteressado: “Então…?”

O brutamontes sorri virando os olhos para cima, furioso, e ergue a mão direita, certo de que receberia uma toalha para limpar as mãos – o que faz demoradamente. Parece querer moldar o homem, em sangue e felpa. Quando termina, ninguém diria que, há menos de dois minutos, aquelas mãos estavam encharcadas de sangue. Ele abre o pano e o coloca ritualisticamente sobre o rosto desfigurado do homem na cadeira. Com a mesma atitude cerimonial, ele volta sua atenção ao fumante desgostoso que o fizera esperar. Sem dizer uma só palavra, o brutamontes força um novo sorriso e pôe-se a caminhar devagar, as mãos para trás.

7 passos ele dá ao redor do homem, que já procurava um outro cigarro no casaco encharcado, para dar as costas a ele. Embora afeito à violência, ele irrita-se por ser obrigado a usar o recurso para chamar a atenção do homem que considera um faz-tudo, um empregado. “Quem esse infeliz pensa que é?”, repete na própria cabeça, esforçando-se para evitar esquartejá-lo com as próprias mãos. “Espero que não seja incomodo, Cristiano”, diz, enfim, com sarcasmo, a voz alta como se falasse numa sala cheia de gente a conversar. “Sei que o horário é algo inconveniente”, completa.

Cristiano parece entusiasmado como se esvaisse para um coma. Ele olha o homem pelo canto dos olhos, de costas, enquanto pensa de verdade sobre o isqueiro perdido para a chuva e sobre ter um Carlton molhado, do maço que comprara no começo da noite, apagado entre os dedos na mão direita. Seu interesse nos detalhes de horário, procedência e localização do cigarro revelam a atenção que dá ao brutamontes. Percebe então a fumaça chegando ao seu nariz pelo lado direito e surpreende-se com o cigarro aceso.

“Ah, você está aí, afinal! E acordado!”, vira-se o homem de terno branco. “Bem vindo!”, arregala os olhos irritados.

“No que posso ser útil, Majestade?”, pergunta Cristiano, irônico, soltando fumaça por entre as palavras e o sorriso cínico.

“Cada vez menos eu gosto do jeito que você fala comigo”, comenta o brutamontes, seguindo devagar com sua caminhada ao redor do visitante.

“Sempre tive jeito pra heresia”, retruca com desdém o fumante, novamente inexpressivo. “O que você quer?”

O brutamontes morde os lábios e fecha os olhos. Move a cabeça como se acomodasse a pressão dentro de si. Respira fundo, ergue os ombros, estala o pescoço. Dá mais alguns passos. Recompõe-se. “Você”. “Você…” – repete vibrando o dedo indicador direito irritado no ar, ainda concentrando-se, de olhos fechados, para não fulminar o homem à sua frente. Por fim, sorri um novo sorriso nervoso, vira-se e coloca a mão direita pesada no ombro esquerdo de Cristiano e aperta firme. “Bom… Desde que você saiba que sua mãe praticamente viveu de joelhos…”, dá uns tapas nas costas do fumante com uma gargalhada forçada, procurando parecer ameaçador. Cristiano não poderia exibir uma postura mais indiferente. De cabeça baixa, traga do cigarro demoradamente e joga a guimba propositalmente aos pés do segundo segurança. Sem saber e sem se importar se o brutamontes de branco ainda o fitava de perto, Cristiano ergue a cabeça soltando fumaça fartamente. Impassível, espera de pé, sem refazer a pergunta.

O brutamontes era, a essa altura, um vulcão pronto para eructar. Frequentemente, a insolência de Cristiano despertava nele a vontade de transformar cidades em sal ou mesmo de afundar a Terra num segundo dilúvio. Era muito convencido de sua lenda e julgava mesmo que merecia que todos o tratassem por “Senhor”. O pensamento curto, próprio de sua onipotência, que sempre demandou pouca criatividade, era talhado às demonstrações de força. Era incapaz de artes ou ciências, mas conhecia milhares de maneiras de matar aos milhões. Era assim que costumava resolver suas contrariedades. Teve vontade de devorá-lo. Por fim, ergueu-se e sinalizou a um dos guarda-costas, que tirou um envelope do interior do paletó.

O homem de branco empurra o envelope no peito de Cristiano como se quisesse atravessá-lo. Sem dúvida, poderia tê-lo feito, mas contentou-se em produzir, finalmente, uma reação física no mensageiro, que inclinou-se levemente com um gemido de dor.

“Mantenha seu celular ligado”, comanda, encarando Cristiano, que parece colocar o ombro no lugar, dolorido. “E obrigado por ter vindo”, ironiza. Cristiano aponta para o corpo largado na cadeira, como se perguntasse se tinha autorização para carregá-lo. O “Senhor” indica com a cabeça que pouco se importa e Cristiano se ajeita para colocar o homem nos braços, o rosto ainda coberto pela toalha ensanguentada. Apenas por costume que Cristiano poderia saber que havia vida naquele corpo.

Sem se despedir ou fazer perguntas, o homem atravessa a porta para seguir pelas escadas e em direção ao carro. Tendo passado pelas escadas com todo o cuidado, carregando o peso semi-morto com dificuldade, é na saída que Cristiano por pouco não derruba uma cadeira com a cabeça do homem que tinha no colo. Faz uma pausa, como se se desculpasse, e abre a porta devagarinho, fazendo de tudo para evitar que ela atinja o moribundo. Sai na chuva, alcança o carro e termina de abrir a porta do carona com o pé.

“Devagar agora”, murmura gentilmente para o homem sob a toalha. Depois de despejá-lo sobre o banco, Cristiano agacha-se sem se importar com a chuva, que agora caía fina. Ele abaixa a cabeça, suspira exasperado e prepara-se, como se fizesse uma oração. Novamente, ergue a cabeça e tira a toalha do rosto do homem bem devagar. Quando percebe seu rosto refeito, intacto, Cristiano não consegue conter a irritação. Abaixa a cabeça mais uma vez, cerra os dentes e aperta os punhos. “Filho da puta!” Suspira pesado de novo, levanta-se e corre para tomar lugar no assento do motorista.

“Tamo chegando, Rafa”, aguenta aí. Dá um tapinha no joelho do amigo, liga o carro e parte na noite longínqua, que ainda parece colocá-los em outra dimensão.

Outrora

tn_tn_bola_futebol___3620[1]Bateu a mão na mesa, esfregou o rosto, escondendo-o nas palmas das mãos, e aquietou-se, acompanhando o silêncio que garantira com o estampido. Descobriu os olhos vermelhos e cansados e fitou a parede no fundo da sala, olhando através da família, que aguardava uma palavra afinal.

“Eu preciso pensar”, murmurou. Levantou-se, catou a velha bolinha e foi para o quintal, chutá-la contra o muro, como gostava de fazer na infância.

Eram ainda 7 anos e ele precisava brincar.