“Era só o tempo que tava errado”

delorean_40_153Ninguém teria visto os flashes de luz àquela hora. A viagem toda, cuidadosamente planejada, aconteceu num piscar de olhos, em plena luz do dia, a partir de um velho estacionamento abandonado, a alguns quilômetros da cidade. Com as tecnologias recém-instaladas na máquina do tempo – e bastante responsabilidade – era possível fazer a jornada parecer um passeio contínuo de carro, sem que ninguém pudesse suspeitar de nada – a não ser de vazamento de combustível, com as chamas a marcar a saída aos pares.

Geraldo, o viajante, teve curiosidade de espiar o futuro. Não queria vê-lo todo e saber dos caminhos que a humanidade percorrera. Quis pular uns anos na frente, cinco talvez, e ver com quem estaria então. Tinha uma fantasia na cabeça a torturá-lo à noite e, mentecapto como era, resolveu que precisava saber. Escolheu uma sexta-feira da Paixão, quando ninguém estaria na rua, dirigiu até o lote vago e meteu-se 3 anos e 10 meses no futuro – era ansioso demais para esperar cinco, mesmo que pudesse chegar lá num salto.

Geraldo poderia ter chegado em qualquer dia, mas escolheu exatamente o 3 de setembro. Era onde tudo tinha começado. A primeira impressão, o primeiro contato, o início de uma longa recuperação e de uma amizade preciosa. Sua inquietação tinha a ver com o momento em que a viu pela primeira vez. Era dessas belezas que tomam um homem de assalto, como se fosse preciso que ela portasse algum tipo de permissão para ser tão linda. Ou que viesse precedida de um aviso para os fracos de coração. Geraldo, o homem mais idiota do mundo, teria feito bom uso de uma advertência como essa.

Em pouco tempo, passaram a ser como velhos conhecidos e, algum tempo depois, pareciam velhos amigos. O pensamento que passou a dominar a mente frágil do idiota era o caminho que faria aquela amizade. Tinha percebido em si uma capacidade para atenção que desconhecia e não havia ninguém naquele tempo que parecesse tão importante. O termo talvez não seja preciso – importante – mas nem mesmo era fisicamente possível, no sentido da criação do universo, que Geraldo passasse mais tempo com alguém. E isto deveria bastar para um simplório como ele, exposto aos perigosos encantos dela.

Tão logo chegou ao futuro, Geraldo logo achou muito estranho que fosse tudo muito igual. Mais tarde é que lembrou-se de ter viajado apenas 3 anos e 10 meses no futuro. Enquanto retornava à cidade, 3 anos e 10 meses no futuro, Geraldo quis voltar sem saber. A ideia de ter ido ao futuro saber como avançava aquela proximidade agravava ainda mais a vergonha que sentia por ter ficado tão curioso a respeito do tema. Tinha lutado algum tempo com a ideia de que estava apaixonado e, por fim, desistiu deixando de lado a ideia apenas para mentir para si mesmo, como se pudesse olhar de soslaio para a paixão que sentia.

Embora não quisesse chamar a atenção, a máquina do tempo não era exatamente um carro comum. O beócio nunca se deu conta de que, não bastassem os imensos exaustores, o Mr Fusion parecia uma estranha antena branca a atrair a atenção de todos, que julgavam estar sendo fotografados para o Google Maps. Dirigindo nas redondeza da casa da amiga, culpado pelo miserável papel de molestador que fazia, Geraldo foi logo avistado. Do outro lado da rua, a amiga, na sua acachapante beleza, armada de chinelos de dedo e um despretensioso vestido cinza que muito bem combinava com seu lindo rosto sem maquiagem, acenava hesitante com uma imensa interrogação no semblante. Geraldo devolveu o gesto encabulado. Ela, afinal, gargalhou e, como ele não deu sinais de que iria encostar, descer e entrar para tomar uma xícara de café, seguiu com seu pacote de pães para casa.

Arrependido, envergonhado, culpado e irritado consigo, Geraldo pisou fundo e acelerou avenida abaixo. Apertou uma combinação de botões e nem se importou que o vissem a desaparecer no ar. Brotou no presente de novo como se nunca tivesse saído, freou a viatura, e repreendeu-se martirizando o pobre do volante. Respirou fundo e pesado e partiu de volta à cidade.

Quando chegou em casa, tratou de desmontar o Mr. Fusion e guardá-lo bem, escondido dele mesmo, para que ele evitasse viagens fugazes ao futuro no futuro. Foi à geladeira e agarrou a primeira cerveja, lançou-se no sofá e ficou pensando naquela linda cara amassada de sono, tão imensamente familiar. Sorriu sozinho, pensando em como gostava dela, em como se divertia. Tinha vontade de conversar com ela o tempo todo, mesmo que fosse para falar de coisa alguma. Ela era seu melhor hábito, o costume mais saudável que adquirira em anos – à frente da bicicleta e da aveia no café da manhã. Acabou relaxando, repassando essas coisas. Teve ainda vergonha da viagem ao futuro, mas agora sorria divertido, repreendendo-se por ter sido tão pateta.

Muito pouco se sabe sobre viagens no tempo, é verdade. Há quem diga que elas nem mesmo são possíveis. Talvez isso explique o paradoxo temporal em que Geraldo ficou preso. Tendo ido rapidamente ao futuro para satisfazer uma curiosidade boba, o idiota voltou no tempo para descobrir que o presente é que tinha mudado. Tudo parecia exatamente igual: o calor, as ruas sujas, manifestações pela volta da Ditadura. Na porta do prédio onde morava, a conversa do porteiro era tão exatamente a mesma que soava como se ele já tivesse dito aquilo milhares de vezes. Tudo igual. Exatamente igual.

Não bastasse ser uma singularidade, o paradoxo temporal do Geraldo precisou ser especialmente específico. Quem tinha mudado, depois da viagem ao futuro, era exatamente a amiga do presente, o passado de 3 anos e 10 meses no futuro. E não era uma mudança de cor de vestido, de alguma maquiagem e calçados de verdade no lugar dos chinelos. Ela sabia seu nome – “Geraldo, né?” – conversava como se o conhecesse, mas ela mesma parecia vinda de um lugar no passado, quando ainda não se conheciam. Era tal o paradoxo: em algum momento no tempo na viagem para o futuro, na ida ou na volta, o passado é que foi alterado, precisamente ali.

Geraldo tentou algumas conversas, falando de coisas que ela saberia de coração, mas as memórias não batiam. A cada dia que passava, ela o considerava mais e mais estranho. Cada gesto, cada fala, cada vez que ela o via um calafrio alcançava sua nuca. Não apenas ela não tinha nenhuma lembrança dele, as memórias dele não correspondiam àquela realidade. O deslocamento temporal fazia as coisas ficarem realmente estranhas: ele parecia saber muito e ela não entendia por quê. À certa altura, ela se convenceu que estava sendo seguida. Numa das conversas que Geraldo tentou, ainda sem entender o que havia acontecido, ele percebeu o desconforto dela, enquanto ela procurava desesperada por algo com o que se defender.

Pouco ficou por pensar. Era preciso ir embora. O trabalho seria difícil e doloroso. Alguém teria o admoestado a criar novas memórias, mas havia também a certeza de que aquele não era seu lugar. Ele não se encaixava mais na sua linha temporal. Tinha cometido a estupidez de espiar o futuro e agora precisava deixar o presente do qual tinha memórias afetivas – não apenas as melhores, mas as únicas. O equipamento novo da máquina do tempo fizera seus cálculos e o colocara ali. Geraldo resolveu conferir os dados do carro e escanear linhas temporais diversas. Descobriu mesmo que não havia dúvida: o tempo podia não estar certo, mas era ali que deveria estar.

A parte mais difícil era lidar com a saudade que sentia do tempo que conhecia. Depois da malfadada viagem, o viajante do tempo passou a ficar mais só; afastar-se significava também deixar de ver amigos em comum. O mentecapto passou a dedicar seu tempo à companhia das louras e do Senhor Fusão. Encarava o aparelho por horas, pensando sobre onde poderia ir. Sabia contudo que, não importava onde, não haveria lugar no tempo em que ele pudesse ficar confortável. Ouvia sem parar uma canção, repetindo na cabeça um verso:

“When you’re gonna realise it was just that the time was wrong, Juliet?”

“É só o tempo que tá errado”, ria-se abatido, antecipando-se à loucura vindoura.

Mentecaptos e idiotas em geral não são especialmente aptos a lidar com o tempo. Geraldo já tinha se mostrado péssimo para esperar e, de coração partido, a coisa tendia a ser pior. Um dia, pela manhã, ele acordou de ressaca. “It was just that the time was wrong”. “It is wrong, Juliet!” “O tempo não tá certo, Julieta!” Procurou o Mr. Fusion sob as latas de cerveja, decidido. Tinha transferido ao aparelho muito da atenção que dedicara, outrora, à amiga. O pequeno reator era agora um companheiro. Assim que o encontrou, deu nele um beijo e o abraçou. Correu então à máquina do tempo e atarrachou o aparelho. Jogou lá dentro as latas, pacotes de cigarros e embalagens de Snickers que comera por dias a fio e entrou no carro sem nem mesmo tomar um banho. Deu partida no motor, abriu a porta da garagem e ganhou a rua. Olhou demoradamente a distância. “O tempo, Julieta. O tempo”, repetiu muitas vezes na cabeça e apertou os olhos, segurando o choro. Levantou a cabeça, sorriu e observou:  “Pra onde vou eu não preciso de ruas”. Pisou fundo, acelerou e sumiu no tempo.

Era uma questão de tempo até que ele também deixasse de ser uma memória no tempo que abandonara.

Conto de fadas

Cute-Couple-In-Car-512X384-2426O sol brilhava no princípio da tarde de um belo sábado quando o casal deixou a reunião, empolgado. Deixaram o prédio tentando evitar expressões mais entusiasmadas, mas se olhavam com brilho nos olhos, vislumbrando o bonito trabalho que tinham pela frente. Ela entrou no carro, abriu a porta do carona e suspirou de alívio, enquanto ele entrava. Ela sorriu satisfeita, os olhos dele a observá-la. Ela juntou as mãos num bater de palmas:

“Ai!”, deu uns tapinhas na coxa dele. “Que legal Nossa… que alívio!”, comemorou.

“Não é?”, ele respondeu, observando a empolgação dela com um sorriso. Ela olhou para ele como se pudesse enxergar algo no futuro:
“Parece que a gente não vai ficar longe nunca mais”. Ele gargalhou e concordou:

“Parece que não”.

” A gente vai trabalhar junto pra sempre”, ela acrescentou, segurando o olhar no futuro com um sorriso. Logo abaixou a cabeça, como se, de repente, precisasse evitar os olhos dele, encabulada. Ele também sorriu sem graça e engoliu seco, como se segurasse algo que precisava dizer. Ela ligou o carro e sorriu de novo, com alguma euforia.

“Nossa, ia ser muito legal se desse certo”, ela começou a divagar enquanto dirigia. “Imagina! Esse projeto dá certo, a gente monta o departamento e começamos a coisa toda do começo”, fantasiou.

“Putz! Ia ser muito legal! Ruim pra você, que não vai ficar livre de mim nunca”, ele gargalhou.

“A gente tá perdido! Vai enjoar um do outro!”, ela concordou, gargalhando de volta.

Houve de novo um pequeno silêncio. Havia algo na cabeça de ambos, certamente, e era difícil dizer se pensavam a mesma coisa. Conheciam-se há alguns anos e passavam muito tempo juntos. Além das horas de trabalho, quando partilhavam muita coisa e falavam de tudo, ultimamente passavam mais tempo envolvidos em novos projetos. Era ele quem primeiro ouvia muito do que acontecia com ela e era ela quem sempre primeiro opinava sobre as questões que ele trazia. Apoiavam-se, divertiam-se, confortavam-se. Tinham a mania de tentar entender como o outro estava, ele sempre mais transparente.

Ela voltou a falar de possibilidades para o projeto novo. Ele precisou interromper:

“Ana, eu preciso te contar uma coisa.”

“Opa!”, ela respondeu, estranhando o tom. Ele começou:

“A gente se conhece já há um tempo e se dá tão bem…”

“Verdade”, ela assentiu sorrindo. “Incrível, né? Parece mais tempo, fala a verdade.” Ele não interrompeu o raciocínio:

“Então. Acho que… tem chance de ninguém ser mais presente na minha vida do que você.” Ela sentiu o coração disparar, sentiu a cabeça leve e uma gostosa vontade de rir. Perdeu a concentração para o trânsito e desculpou:

“Acho que vou parar o carro. Isso parece importante.” Encostou o carro, desligou o motor, ajeitou-se no banco e sorriu ao amigo. “Pode continuar”, insistiu ansiosa. Ele sorriu, voltando a procurar palavras:

“Então”, repetiu. “Você deve ser a pessoa mais presente na minha vida… quero dizer… a gente passa muito tempo junto, conversa o tempo todo…”, interrompeu, rindo-se de estar tão embaraçado com alguém que era, até agora mesmo, tão familiar. “Lá em casa todo mundo já sabe…” Ela riu também e sentiu um frio na barriga. Tentou conter-se, mas logo levou as mãos à boca, os olhos arregalados. “Nós estamos no mesmo lugar”, ela pensou.

Ele sorriu nervoso e continuou:
“Não sei se soa estranho, a essa altura… quero dizer… tanto tempo depois…”, riu nervoso de novo, “você sabe que eu te amo.” As mãos dela permaneceram no mesmo lugar, a mesma expressão, mas os olhos começaram a brilhar. Ele mesmo se emocionou, levou as mãos aos braços dela e, afinal, tomou as mãos dela não mãos. Ela mal respirava, o coração disparado.

“Eu precisava te dizer isso. Pode parecer precipitado, mas… eu vou me casar.”  A moça gelou. A expressão desfez-se numa grande interrogação. A notícia a acertou como um soco e ela sentiu que afogava. A comoção virou um engasgo desconfortável. Ela piscou muitas vezes, girou a cabeça, tirou as mãos das mãos dele e juntou-as sob o queixo e tentou sorrir, em aprovação.

“Hmmm”, exclamou com os olhos ardidos, a garganta já a arranhar. Ele mantinha os olhos arregalados, esperando que ela dissesse algo, as mãos fechadas suadas de ansiedade. Ela manteve a cabeça baixa. Juntava forças para engolir o que sentia e parabenizar o amigo. Por fim, ergueu a cabeça de novo, sorriu nervosa e respondeu:
“Como?”, gesticulou como se desistisse de controlar-se. Ele estranhou. Ela continuou:

“Como? Quando?” O sorriso dele desmanchou. “A gente passa o dia inteiro juntos, faz tudo junto, conversa de tudo… Onde você conheceu essa… essa… mulher? Eu não sei dessa mulher!”, terminou por desabar.

“Quê isso, Ana?”, ele perguntou algo assustado. Ela recuperou a respiração, fez um gesto, como se pedisse para ele esperar. Ele a observava pasmo.

“Essa mulher… por que você nunca falou dela?”, ela perguntou, ainda de cabeça baixa, tentando esconder os olhos vermelhos e o nariz a escorrer.

“Como assim, Ana?”, ele pareceu surpreso. “Eu devo ter comentado, com cert…”

“Nunca. Nem uma vez”, ela interrompeu.

“Que diferença faz? O que importa isso?”, ele perguntou.

“Tudo, Pedro!”, ela o encarou afinal, os olhos vermelhos, uma lágrima riscando a bochecha esquerda. “Tudo o que você disse! O tempo, a pessoa mais presente. A primeira pessoa de manhã, merda!”, xingou e pediu desculpas, levando as mãos ao rosto.

“Não tô entendendo, Ana”, ele observou. Ela se irritou novamente.

“O que é tão difícil de entender?”, fez um gesto amplo e nervoso com os braços que apontava o tamanho da ignorância do amigo. “Você esteve presente em tudo, sempre que eu precisei. É quem melhor me ouve, quem mais tempo pra mim. Você nunca, nunca, me trata como se eu estivesse ganha. Você me agrada o tempo todo. O tempo todo! Ninguém se importa mais do que você.”

“O que isso tem a ver com qualquer coisa, Ana?”, o rapaz perguntou, irritado. Ela, a essa altura exasperada, tentava encontrar uma maneira de explicar como pôde ter cometido o crime de apaixonar-se pelo amigo.

“Pedro…”, ela começou suspirando. “Eu…  a gente… você é a melhor pessoa que conheço. Meu amigo mais próximo, mais presente”, evitou usar a expressão que o amigo usara. “Você… sabe tudo. Se importa com tudo… “, sorriu dolorido um sorriso de saudade, como se antevesse que aqueles dias de proximidade estavam fadados ao fim. Sua confissão, ela sabia, determinava o fim daquela amizade. Desistiu, afinal. “Eu amo você, cabeção”, aliviou-se. “Não tem muita matemática envolvida.” Apertou os olhos demoradamente e sonhou com um carinho. Ele não tinha reação. Olhou para ela um tempo, olhou para o carro ao redor. Por fim, ele apresentou tudo quanto entendera do desabafo da amiga:

“Porra, Ana! Crise de ciúme agora? Eu te conto a coisa mais importante que vou fazer e você resolve que tem ciúme? Tá achando que vai me perder, que não vou ter tempo? Poxa vida!”

Ela levantou a cabeça e olhou pra ele, incrédula. Não tinha como fazê-lo entender, aparentemente. Ele sentia-se injustiçado e esperava que ela se desculpasse:

“Não esperava isso, sabe? De repente, eu não te conheço mais. É disso que você tá falando, ciúmes?” Ela explodiu mais uma vez, dessa vez, sentindo o coração desfazer-se com os cacos da amizade finda:

“Merda, Pedro! Merda!”, ela devolveu. “É tão difícil assim entender que eu me apaixonei? Eu tenho que desenhar pra você, caralho?”

Ele ficou calado uns segundos, olhando para ela a chorar, esfregando a testa, nervosa. Pensou longamente, vasculhando a mente, procurando o que dizer. Afinal, ele franziu a testa, olhou pra ela, respirou fundo e hesitou. Virou os olhos algumas vezes, como se vasculhasse um pesado arquivo mental, ergueu o dedo, hesitou de novo, respirou de novo e mandou:

“Como? Quando?”

Ela ergueu a cabeça e devolveu, furiosa:

“SAI DO CARRO AGORA!”

Recordar é viver

quepe_preto[1]A moça chegou à delegacia visivelmente nervosa. Seus instintos tentavam protegê-la de uma nova ocorrência – e até de tudo o que já acontecera – e ela movimentava-se como um gato assustado. Algo havia mudado no seu status na sociedade, certamente, e ela já entendia que era algo doloroso com o que conviver. O homenzarrão de farda, autoridade policial, sentou-se na cadeira do outro lado da mesa defronte à moça.

“Como é isso de ‘estupro’, senhora?”, perguntou o oficial. A moça hesitou, piscou longo e demorado, como se pudesse abrir os olhos novamente e entender a pergunta – ou mesmo acordar pra uma realidade onde ela não se colocasse. “Eu preciso entender, é só”, insistiu o homem da lei.

“Sério? O senhor não sabe o que é um estupro?”, perguntou a moça, algo ultrajada pela insistência do homem, que cruzou os braços, recostou na cadeira e aguardou a resposta. A moça, incrédula, começou a tatear o ocorrido.

“Bom… era um homem, o senhor sabe. Ele…  bem… começou a se aproximar e eu andei mais rápido…” A moça fez uma pausa e esperou que o oficial tivesse entendido o constrangimento que provocava ao fazê-la repassar pela situação. Seu semblante, contudo, era frio, como se observasse a cor de uma parede vazia. A moça engoliu seco, voltando a escolher palavras. “Eu… sei lá… me cansei…”, começou a colocar sobre si mesma uma culpa que não existia, “e aí… acho ele me alcançou…”

O polícia não dava sinais de estar satisfeito. “Mas, o que você acha que caracterizou o estupro? Não foi você que deu mole?” A moça sentiu a espinha gelar. A situação estava prestes a se tornar mais embaraçosa do que o ato que a levara até ali. “Eu… ele… me apalpou e me segurou”. Coagida, a mente da moça deslizou para os detalhes e só parou quando estava prestes a reviver a penetração. Chegou a pedir desculpas por não ter sido forte o suficiente pra evitar o atentado e até admitiu que escolhera o caminho errado. Por muito pouco, ela não livrou o agressor do crime que cometera.

“Bom…”, começou o oficial. “Parece que é isso mesmo. Ouviu aí, chefe?” A moça sentiu um novo calafrio. Estava sendo ouvida por terceiros sem ter consentido ou mesmo sem estar ciente.

“É. Essa tá fudida mesmo. Terapia, uns bons anos até confiar em alguém de novo”, observou o chefe. “Pode ir, filha. Nós vamos seguir com o caso”.

O depoimento acabou por promover uma mudança peculiar na lembrança que ela guardaria do caso. Agora, muito mais aterrorizante do que viver um novo atentado era revivê-lo em detalhes no depoimento, ao precisar contar com auxílio policial.