Até nunca

136276_Papel-de-Parede-Colina--136276_1440x900[1]Parecia uma manhã ensolarada de domingo. As crianças acenaram com entusiasmo de longe. Ele apenas sorriu triste. Sob a sombra do arvoredo no topo da colina, eles se encontraram às margens de um calmo lago. Ele se ajoelhou para abraçá-los, o que fez tão demoradamente que preocupou as duas crianças:

– O que foi, papai? – perguntou o rapazinho, afastando o homem de si para tentar topar-lhe o semblante. Ele não pôde erguer a cabeça. A menininha assustou-se, fez um longo beiço e encarou o irmão, como se quisesse saber o que estava acontecendo.

De cabeça baixa, o homem permaneceu mais um tempo, tentando encontrar algum fôlego para dizer o que precisava. Quando encarou novamente as crianças, tinha os olhos ensopados de lágrimas e um sorriso nervoso. Levou às mãos às nucas das crianças, num carinho desesperado:

– Ei! Vocês estão bem? – o carinho era uma espécie de esfregão. Parecia querer absorvê-los. A menininha parecia mais assustada. O rapazinho sorriu desconfortável:

– Estamos bem! Você tá, papai?

O homem olhou pra cima em desespero. O choro era incontrolável.

– Não. O papai não tá bem – os encarou novamente – as coisas não saíram como deviam… e… – fez uma pausa para o choro que veio profuso e precisava ser interrompido – Nada saiu como eu queria.

Ele encarou o rapazinho, esfregando de novo sua nuca. Abraçou os dois a soluçar:

– Nada – repetiu.

O homem afastou-se, levando agora às mãos ao chão, para amparar-se. O choro, por fim, diminuiu. Vinha a parte mais difícil.

Ele se sentou e recebeu as crianças no colo. Foi preciso alguma atenção à menininha, para que ela desfizesse o beiço. Conversaram sobre bichos, sobre brincadeiras, arranjos de cabelo. O rapazinho falara de como era veloz e sobre quanto peso conseguia carregar. A menininha falou de insetos, de flores e sobre jogar bola. O olhar do homem era triste, mas atento e empolgado. Quando as crianças passaram a fazer intervalos maiores entre as próprias falas, o homem indicou querer levantar-se.

– Crianças… – o choro reapareceu rápido – papai precisa se despedir.

– Por que, papai? Onde você vai? – perguntaram os dois.

O homem abaixou a cabeça, segurando o choro.

– Eu não vou a lugar nenhum. Nem vocês.

Fizeram um silêncio cortante. Afinal, o rapazinho, de semblante sério, perguntou:

– A gente não vai nascer?

No reino da fantasia

princesa-castelo2[1]- Eu vou ser controlador de vôo! – avisou o menino.
– Eu é que vou! – contestou o outro.
– Eu sou mais alto! O papai vai querer eu! – retrucou o primeiro.
– Não vai. Ele vai querer eu porque… porque… eu… Mãe! O papai não quer ele! – apelou o menorzinho, chorando. A mãe intrometeu-se:
– Do que vocês tão falando? Por que você tá chorando?
– O papai vai querer eu de controlador de vôo! – respondeu o pequeno, desabando a chorar. O mais velho tentou explicar:
– É que a gente brinca com os aviões do papai.
– Como assim, filho?
– Então! Pra ele pilotar, alguém tem que segurar o avião e lançar, pra ele poder usar o controle remoto de longe. É isso.

A mãe não entendeu muito bem como aquilo funcionava, mas sentiu que era perigoso. Não estava enganada. O que o pai fazia era colocar um dos meninos pra segurar um aeromodelo, com motores ligados e a hélice em tempo de arrancar um dedo ou uma mão, para que ele pudesse controlá-los num espaço especialmente inadequado, em meio ao trânsito intermitente da rua onde morava. E era sempre assim.

Nos finais de semana em que ficava com os meninos, o pai inventava uma boa maneira de usá-los. Quando estacionava em lugar impróprio e os trancava no carro para correr à farmácia ou à padaria, inventava o nome de uma brincadeira como “Viagem espacial no foguete do papai” e ainda colocava o mais velho como Capitão da nave, transferindo para ele a responsabilidade pelo irmão mais novo.

– Vou explorar o espaço, capitão. Tome conta da nave – informava solene.

Outras vezes, inventava “Aventura submarina”, escorava-se na piscina com uma boa caipirinha e deixava os pequenos se virarem na água. O que não faltava eram “expedições” e “missões”, com o mais velho sempre a bancar o responsável. Pobrezinho, habituou-se ao papel, mesmo fora das brincadeiras.

A irresponsabilidade do pai invadia com passos largos a crueldade. Determinou que os meninos tinham a missão de juntar o papai e a mamãe de novo.

– Vocês tem que convencê-la! É a missão de vocês! – admoestava – O papai já tentou de tudo e não conseguiu. A mamãe deve estar enfeitiçada! – sussurrava, inspirando mistério.

Seduzidos pela fantasia – e pela lábia doce do pai canalha – os meninos logo começaram a apontar vilões e a enxergar inimigos. Foi um pulo para desdenharem da autoridade da mãe, vitimada por um encanto maligno e, portanto, incapaz de divisar a virtude do pai herói.

– Você não gosta mais do papai porque… tá virando… do mal – dizia chorando o mais novo.

O mais velho explanava mais demoradamente, arrazoado. Falava pacientemente em coisas como “abrir os olhos”, “fazê-la ver” e “o papai é tão bonzinho”. Cada frase parecia um eco do que dizia o pai. A cada encontro, o repertório se enchia e retornava mais completo e mais complexo. O pobrezinho, cada vez mais confuso, tinha cada vez mais pena da mãe. Sentia que precisava salvá-la. Sua rainha precisava encontrar seu Príncipe Encantado, sobre quem não tinha nenhuma dúvida.

Expostos a perigos que nem poderiam imaginar, seguiam os meninos sempre ansiosos por encontrar com o pai mágico e aventureiro, que fantasiava ser o melhor pai do mundo. Na brincadeira perigosa que armava inconsequente, não contava com a maturidade crescente dos meninos, que logo superaria a própria, nem contava que a rainha enfeitiçada que queria de volta nunca tinha sido uma donzela em perigo.

Mundo pequeno

como-escolher-macanetas-para-portas-3-4[1]Colocou o último menino na cama e o beijou na testa automaticamente. O carinho parecia o mesmo, mas havia uma espécie de ausência que se via nos olhos, a cabeça em outros pensamentos. Apagou a luz do quarto, parou no corredor e olhou a casa apagada. Pensou em verificar as portas todas novamente, mas não se moveu. Sentia-se pesada. Confortou-se no hábito que tinha das trancas e entrou para o próprio quarto. Resistiu, como de costume, à vontade de fechar a porta e ter algum sossego. Sonhava dormir até tarde, um dia desses. Apagou a luz, caminhou à cama e parou de pé. Os olhos pesados pediram uma longa piscadela. Oportunistas, alguns pensamentos escaparam naqueles segundos. Como num susto, os olhos se abriram, quase determinando o fim daquela noite de sono.

Hesitou mais um pouco de pé, garantindo que os olhos permanecessem pesados. Pensava se permitia abandonar-se sobre a cama ou se dormia o sono velado de sempre. “Até quando?”, provocou um pensamento que tinha escapado. Ela piscou forte, como se quisesse esmagá-lo com os olhos. Lançou-se na cama, confortada novamente pelo hábito. Ainda que quisesse, seu sono nunca poderia ser irresponsável ou negligente.

O nariz afundado no colchão, o corpo sobre as cobertas, o travesseiro de lado. “Até quando?”, provocou de novo o pensamento. Os olhos, fechados, pesaram como nuvens prestes a precipitar. Virou-se e dissipou o mau tempo, esfregando o rosto demoradamente com as palmas das mãos. Parecia querer redesenhar a própria identidade. Com um movimento rápido, meteu as pernas sob o edredom e ajustou o travesseiro. Encolheu-se e deixou escapar um suspiro de satisfação por estar confortável. Soltou todo o peso da cabeça sobre o travesseiro e sentiu de novo todo o peso do mundo que carregava sozinha sobre as costas. Quis um abraço em que pudesse confiar que tudo ficaria bem, mas recriminou a fantasia, sentindo o rosto envelhecer um bocado, ciente de que esse momento, de estar tudo bem, ainda ia longe no futuro.

Dormiu tendo a companhia costumeira do velho nó na garganta, do queixo apertado e os olhos ardidos, que só evitavam o choro vencidos pelo cansaço. Acordou a mesma rocha onde carregava o mundo pequenino e pesado que tinha. Geriu as primeiras atividades da manhã como se dominasse o tempo que nunca era – nem poderia ser – seu. Tudo pronto, correu à porta da frente e levou a mão à maçaneta com a respiração suspensa, colhendo a primeira certeza do dia. Se o sono dependesse de novo daquela fechadura, ela poderia descansar mais um dia.